Por Cristina Braga

Para que a roda da reciclagem se complete é necessário que todos os eixos dessa engrenagem funcionem direito. Não basta o consumidor fazer sua parte. É preciso saber como fazer. De olho no lixo desperdiçado, a iniciativa privada traz novidades que se somam às políticas públicas, nesta cidade que produz 20 mil toneladas de resíduos diariamente. Segundo a Prefeitura de São Paulo, desse total, 11 mil toneladas vêm de residências e pequenos comércios. Daí a importância de ampliar o diálogo com o cidadão comum, aliando tecnologia e praticidade.

Óleo no ralo, não!

A tecnologia veio dar uma mãozinha no descarte do óleo de cozinha usado. No dia 17 de maio, a Associação Brasileira para Sensibilização, Coleta e Reciclagem de Resíduos de Óleo Comestível (Ecóleo) junto com a Vitaliv, empresa do setor, lançaram um aplicativo de celular (www.vitalivapp.com.br) para facilitar a vida de quem deseja dar uma segunda utilidade ao produto, que depois é transformado em biodiesel (100% renovável), sabão e tintas. A nova ferramenta lista e mapeia locais recicladores e aponta os mais próximos para a coleta na região oeste. Em Pirituba, o projeto tem como parceira regional a Dajac Indústria e Comércio de Óleo Vegetal. Célia Marcondes, fundadora da Ecóleo, lembra que essa “é uma iniciativa sem apoio governamental, fruto da sociedade civil organizada”. O serviço gratuito de retirada – imediata ou agendada – pode ser solicitado por moradores de casas e condomínios. Atualmente, são coletados na capital mais de 1,6 milhão de litros de óleo comestível usado, o que representa 10% do potencial existente.

Crescer é a meta

Responsável por 90% da coleta em Pirituba e São Domingos, a Cooperativa de Reciclagem Crescer atua nos distritos há dez anos, sendo conveniada à Amlurb (Autoridade Municipal de Limpeza Urbana). Só na região, são recolhidos mais de oito mil quilos de resíduos por dia. Além da reciclagem, a entidade sem fins lucrativos realiza, junto a escolas públicas locais, palestras e eventos de conscientização sobre educação ambiental. Em parceria com a Diretoria Regional de Ensino (DRE) Pirituba/Jaraguá, organizou ainda, há dois meses, encontros com 153  professores, de 68 unidades da rede municipal. “A ideia é implantar a reciclagem dentro das escolas onde a Crescer pode nos atender”, explica Ana Cauhy, representante da DRE.

Mesmo com a “temática verde” em alta, ela salienta que os munícipes ainda têm dúvidas quanto à logística do lixo. “Não sabem de quem são as obrigações. Pedem para a Loga retirar entulhos ou para a Inova coletar lixo orgânico.” Entusiasmada com as palestras como forma de conscientizar a população, a profissional verificou que as pessoas costumam separar seus resíduos por tipo (papel, plástico e vidro), o que não é necessário. “Tudo estará misturado em uma esteira e, depois, separado novamente”, explica.

Em plena expansão, a cooperativa traz uma novidade: a mudança para um galpão de 1,2 mil metros quadrados no City Jaraguá, que tem o dobro do tamanho do atual, no Parque São Domingos. Jair do Amaral, o presidente que comanda os 42 sócios-cooperados tirados de situação de vulnerabilidade, quer dobrar a mão de obra até 2017. Outra boa nova é o “Reciclômetro”, um aplicativo de gestão da “logística reversa” dos resíduos recicláveis coletados, processados e destinados pela Crescer. Nele, o munícipe saberá qual é o dia da coleta seletiva em seu endereço, bem como o que deve ou não ser destinado para reciclagem. “Assim, a população terá como descartar grandes volumes, agendando a retirada. Outra possibilidade é incluir uma interface com a Operação Cata-Bagulho”, completa.

Em fase de testes, a ferramenta vem mapear a quantidade de resíduos em detalhes, desde sua origem até a destinação final – como prevê a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída em 2010.

Liquidificador quebrado

Há dois meses, a Lapa foi escolhida para um projeto inédito de logística reversa de eletroeletrônicos: o “descarte ON” (descarteon.jica.eco.br). Trata-se de um convênio entre os governos brasileiro e japonês, viabilizado pela JICA (Japan International Cooperation Agency), e com participação da Amlurb . Os testes no bairro seguirão até outubro deste ano. A partir de agora, qualquer pessoa poderá se dirigir a uma das lojas participantes e descartar um equipamento de até 60 centímetros de largura, 50 cm de comprimento e 75 cm de altura. Mas estão de fora toners, cartuchos, pilhas, baterias e lâmpadas. O valor global da iniciativa é de cerca de R$ 11,5 milhões.

Helena Maria Rivello Terzella, técnica do Departamento de Planejamento e Desenvolvimento da Amlurb, adiantou à Folha Noroeste que a segunda etapa do projeto – Coleta em Sua Casa – está prevista para começar no final deste mês. “O alvo são os eletroeletrônicos de grande porte, como geladeiras, máquinas de lavar, ar-condicionado, fogão e televisores.” Segundo Shigeyuki Shoji, consultor da JICA, o consumidor que comprar o produto nas lojas participantes, no sistema porta a porta, e quiser descartar o seu antigo, poderá “adquirir o serviço de coleta em domicílio, oferecido pelo varejo, no valor de R$ 10 a unidade”.

No Japão, a legislação “verde” foi sancionada em 2001 e, da mesma forma que a brasileira, estabelece a responsabilidade compartilhada entre todos os atores da cadeia. Já no Brasil, a lei só funciona no papel.

 

Fonte: Folha Noroeste