Depois de fritar batatas, o óleo de cozinha pode servir de combustível, virar sabão, ser usado a produção de tintas, entre outras destinações. Agora, se o óleo for jogado pelo ralo, ele pode contaminar córregos, rios, mares, além de obstruir o encanamento da rede de esgoto.

Para seguir a alternativa ecologicamente correta, diversas iniciativas para a coleta do óleo vêm sendo tomadas nos últimos anos. E em um ano houve aumento de 70% na coleta do óleo para reciclagem na capital. No ano passado, as entidades recolhiam cerca de um milhão de litros por mês. Hoje essa coleta passou para 1,7 milhão. A maior parte — 70% — é encaminhada para a produção de biodiesel. O restante vai para a produção de tintas, vernizes e graxa.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleo, o Brasil consome cerca de quatro bilhões de litros de óleo por ano. Desse total, 200 milhões de litros de óleo usado são jogados em rios e lagos, de acordo com um cálculo da Oil World.

Um litro de óleo pode contaminar até 25 mil litros de água potável. “Além de prejudicar o meio ambiente, esse óleo entope os encanamentos”, explicou Marcelo Morgado, assessor de meio ambiente da presidência da Sabesp.

Por isso, a empresa, em parceria com a ONGs, criou o Programa de Reciclagem de Óleo de Fritura (Prol) para incentivar a coleta em condomínios no bairro de Cerqueira César, na região central. O serviço de desobstrução na região, onde quase 100% dos condomínios aderiram ao programa, é 26% menor que em outras regiões.

O óleo é descartado em tambores de 50 litros, fornecidos pela própria ONG. A experiência está sendo multiplicada. O óleo serve como alternativa de emprego e geração de renda para uma parte da população carente. “Na periferia fizemos cursos para que as pessoas pudessem reaproveitar o óleo para a produção de sabão”, disse Thais Orta, responsável pelo projeto de reciclagem de óleo de cozinha da Universidade Aberta de Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz) da secretaria municipal do Verde e Meio Ambiente.

Para destinar o óleo, o ideal é recorrer às empresas e ONGs, que fornece cartazes, bombonas de 50 litros identificadas para estocagem e mantêm um esquema de retirada. Segundo o Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb), há 16 centrais de triagem que recebem o material. No site da Ecóleo (www.ecoleo.org.br) estão os endereços de coleta. Quem mora em condomínio pode fazer o pedido de um galão de 50 litros.

Ônibus da USP vai rodar
Até o fim do ano, os 20 ônibus que circulam no campus da Universidade de São Paulo, no Butantã, na Zona Oeste, vão rodar com óleo de cozinha transformado em biodiesel. O projeto é feito em parceira entre o Instituto de Energia e Eletrotécnica da USP e a Sabesp. Uma usina está sendo montada dentro da universidade e terá capacidade de produzir cerca de 200 litros do combustível por dia. “Será o suficiente para abastecer os ônibus que circulam dentro do campus”, explicou Marcelo Morgado, assessor de meio ambiente da Sabesp.

Segundo ele, a partir do segundo semestre será feita uma campanha para recolher o óleo na região do Butantã. Supermercados e pontos de entrega serão responsáveis de coletar o produto levado pelos moradores. “O excedente será enviado para outras usinas de porte que também produzirão biodiesel.”

Os postos de coleta se multiplicam pela cidade. Um deles foi instalado no Instituto Central do Hospital das Clínicas. Desde o início do ano, o local já recebeu 300 litros de óleo de cozinha. “A cozinha do hospital já destinava seu óleo para uma cooperativa que o transforma em sabão”, explicou Carlos Suslik, diretor executivo do Instituto Central.

Comerciante faz coleta
Há dois anos, o comerciante Benedito Galvão Cury Batista, de 56 anos, ouviu uma reportagem na rádio CBN que explicava sobre a reciclagem do óleo de cozinha. Dias depois, procurou a Associação Brasileira para Sensibilização, Coleta e Reciclagem de Resíduos de Óleo Comestível (Ecóleo) com o objetivo de ganhar dinheiro com a iniciativa. Hoje chega a receber cerca de 500 litros de óleo por dia.

“Tem muita gente que não sabe o prejuízo que dá jogar o óleo pelo ralo”, disse. A divulgação do serviço funciona no boca a boca. “Um dia parei na frente de um condomínio que fazia o desentupimento do esgoto. Na hora mostrei para o síndico que as pedras que estavam obstruindo o encanamento eram causadas pelo óleo de cozinha. Ele gastou cerca de R$ 3.500 pelo serviço”, disse. “Expliquei que ele poderia economizar essa grana se o óleo fosse coletado. E divulguei nosso serviço. Na hora ele adotou o programa.”

A ONG Trevo faz a coleta em cerca de quatro mil condomínios. “Cada família consome cerca de um litro de óleo de cozinha por mês. As despesas com desentupimento chegam a cair 50% quando há coleta”, disse Roberto Costacoi, da ONG.

Fonte: Diário de São Paulo | 21 de junho de 2010